Análise Japão: pontos fortes e fracos do rival do Brasil
Depois de um início de Copa do Mundo cercado por dúvidas, a Seleção Brasileira chega ao mata-mata vivendo seu melhor momento no Mundial. A vitória sobre a Escócia, na atuação mais convincente da equipe desde a chegada de Carlo Ancelotti, elevou a confiança para o primeiro duelo eliminatório.
Agora, porém, não há mais margem para erros. Nos 16 avos de final, quem perder faz as malas e volta mais cedo para casa.
O desafio também está longe de ser simples. O Japão fez uma campanha sólida, confirmou sua evolução nos últimos anos e ainda carrega um retrospecto que merece atenção: venceu o último confronto contra o Brasil. Um aviso de que a Seleção, apesar de favorita, terá um teste bem mais complicado do que muita gente imagina.
Como chega o Japão para enfrentar o Brasil?
Comandado por Hajime Moriyasu desde agosto de 2018, o Japão disputa sua segunda Copa do Mundo consecutiva sob o mesmo treinador. A continuidade do trabalho ajudou a consolidar uma equipe disciplinada taticamente, organizada e acostumada a enfrentar seleções de alto nível.
Depois de liderar um grupo com Alemanha e Espanha na edição anterior do Mundial, os japoneses voltaram a fazer uma boa campanha. Desta vez, terminaram na segunda colocação do Grupo F, atrás da Holanda e à frente de Suécia e Tunísia, garantindo vaga nos 16 avos de final.
A boa fase, porém, não começou na Copa. Antes mesmo da bola rolar, o Japão chamou atenção ao vencer a Inglaterra em pleno Wembley e também superar o Brasil. Embalado, chega ao confronto defendendo uma sequência de dez partidas de invencibilidade.
O que o Japão mostrou nos três primeiros jogos?
O empate por 2 a 2 com a Holanda deixou claro logo na estreia que o Japão não se intimida diante de adversários tradicionais. Depois de estar atrás duas vezes no placar, a equipe manteve a disciplina tática, respondeu rapidamente e buscou o empate nos minutos finais, demonstrando poder de reação e confiança no plano de jogo.
Na segunda rodada, os Samurais Azuis deram uma demonstração de força ao atropelar a Tunísia por 4 a 0. O domínio foi do início ao fim, com controle da posse de bola, alto índice de acerto nos passes e um ataque que aproveitou praticamente todas as oportunidades criadas. O resultado confirmou que a equipe também sabe assumir o protagonismo quando encontra espaços.
Já na última rodada, o empate por 1 a 1 com a Suécia serviu como um teste diferente. Em um duelo equilibrado e bastante físico, o Japão voltou a exibir segurança defensiva, mas também revelou dificuldades quando o adversário aumenta a intensidade na reta final. O travessão evitou a derrota nos acréscimos.
No geral, a fase de grupos apresentou uma seleção versátil. O Japão soube competir contra uma potência europeia, dominou um rival tecnicamente inferior e suportou a pressão em um confronto equilibrado. Um cartão de visitas que exige atenção do Brasil.
Histórico de confrontos entre Brasil e Japão
Brasil e Japão já se enfrentaram 14 vezes ao longo da história. O retrospecto é amplamente favorável à Seleção Brasileira, com 11 vitórias, dois empates e apenas um triunfo japonês.
O único duelo entre as seleções em Copas do Mundo aconteceu em 2006. Treinado por Zico, o Japão saiu na frente, mas viu o Brasil virar para 4 a 1 com dois gols de Ronaldo, um de Juninho Pernambucano e outro de Gilberto. A partida também ficou marcada por um momento histórico: Rogério Ceni entrou nos minutos finais e fez sua única aparição em Mundiais.
A única vitória japonesa aconteceu justamente no encontro mais recente entre as seleções. Em outubro de 2025, o Brasil abriu 2 a 0 no primeiro tempo, mas sofreu a virada por 3 a 2. Curiosamente, a linha defensiva escalada por Carlo Ancelotti naquele amistoso era formada por Hugo Souza, Paulo Henrique, Fabrício Bruno, Beraldo e Carlos Augusto. Nenhum deles foi convocado para esta Copa do Mundo.
Quais são os principais pontos fortes do Japão?
O grande mérito do Japão é transformar um elenco sem tantas estrelas em uma equipe extremamente competitiva. Se faltam craques capazes de decidir sozinhos ou jogadores de grande imposição física, sobra força coletiva. O trabalho de Hajime Moriyasu, iniciado em 2018, fez dos Samurais Azuis um time que raramente se desorganiza durante os 90 minutos.
A principal arma está nas transições ofensivas. Assim que recupera a bola, o Japão acelera o jogo com poucos passes, explorando a velocidade dos pontas e a movimentação constante dos atacantes. É um estilo que pode incomodar adversários que demoram para recompor a defesa.
Outro destaque é a eficiência. Mesmo sem criar uma quantidade enorme de oportunidades, os japoneses costumam aproveitar muito bem as chances que aparecem. Os sete gols marcados na fase de grupos refletem um ataque que chega ao mata-mata em alta.
Por fim, chama atenção a disciplina tática. O Japão mantém as linhas compactas, segue o plano de jogo com muita fidelidade e raramente perde o controle emocional, mesmo quando sai atrás no placar. Foi assim diante da Holanda e em outros momentos da competição, mostrando por que se tornou uma adversária tão incômoda para qualquer favorito.
Onde estão os pontos fracos da seleção japonesa?
Apesar da boa campanha, o Japão também chega ao mata-mata com problemas importantes. O principal deles é a ausência de jogadores capazes de desequilibrar individualmente. Takumi Minamino e Kaoru Mitoma, dois dos maiores talentos desta geração, ficaram fora da Copa por lesão. Durante o torneio, a equipe ainda perdeu Takefusa Kubo, que machucou o joelho na estreia contra a Holanda e não voltou a atuar.
Dentro de campo, uma das principais vulnerabilidades aparece nas bolas aéreas. A defesa japonesa é bem organizada, mas sofre quando enfrenta atacantes e zagueiros de maior porte físico. O gol da Holanda na fase de grupos nasceu justamente dessa forma, mostrando que escanteios e faltas laterais podem ser um caminho para o Brasil.
Outra dificuldade surge quando o sistema defensivo é obrigado a defender no mano a mano. Coletivamente, o Japão fecha bem os espaços, mas seus laterais e zagueiros nem sempre levam vantagem em duelos individuais contra jogadores rápidos e habilidosos, característica que o ataque brasileiro oferece.
Além disso, o estilo intenso de marcação costuma cobrar seu preço na reta final das partidas. Como todos participam da recomposição defensiva, o desgaste físico aumenta com o passar do tempo, abrindo espaços que podem ser decisivos se o Brasil conseguir manter a posse de bola e acelerar o jogo nos minutos finais.
Como o Japão pode tentar surpreender o Brasil?
A tendência é que Hajime Moriyasu monte um plano de jogo paciente, apostando na organização defensiva para explorar os espaços deixados pela Seleção. O histórico recente também pode pesar a favor dos japoneses, que entram em campo sabendo que já foram capazes de vencer o Brasil sob o comando de Carlo Ancelotti.
Mais do que acelerar pelos lados do campo, o Japão deve tentar atrair a pressão brasileira para atacar no momento em que recuperar a bola. Se conseguir encontrar espaço às costas dos laterais, obrigará os zagueiros brasileiros a correrem em direção ao próprio gol, um cenário que pode ser perigoso caso a equipe ataque de forma desorganizada.
Outro ponto que merece atenção é a gestão da partida. Os japoneses podem aceitar a pressão brasileira nos minutos iniciais, diminuir o ritmo do jogo e esperar o momento certo para acelerar. Na etapa final, Moriyasu costuma recorrer a atacantes descansados e muito velozes, mantendo a intensidade das transições quando o adversário já apresenta sinais de desgaste.
Se conseguir executar esse plano com a disciplina demonstrada na fase de grupos, o Japão terá argumentos para transformar um jogo de poucas oportunidades em um confronto equilibrado.
Onde o Brasil pode levar vantagem?
Apesar da boa campanha, o sistema defensivo japonês chega ao mata-mata bastante desfalcado. A equipe já perdeu o volante e capitão Wataru Endo antes da Copa e viu o zagueiro Kō Itakura deixar o campo lesionado contra a Suécia. Caso ele não tenha condições de jogo, a defesa perde velocidade na cobertura e força nas disputas pelo alto.
Os duelos individuais também podem favorecer a Seleção. O Japão marca muito bem de forma coletiva, mas encontra mais dificuldades quando seus defensores ficam expostos no mano a mano. Jogadores como Vinícius Júnior têm qualidade para desequilibrar pelos lados do campo, forçando faltas, cartões e desorganizando a linha defensiva adversária.
A bola parada é outro fundamento que pode fazer a diferença. Com menos estatura e força física na defesa, o Japão já mostrou vulnerabilidade nesse aspecto ao sofrer um gol de cabeça da Holanda na fase de grupos. Zagueiros como Gabriel Magalhães e Marquinhos podem levar perigo em escanteios e faltas laterais.
Outro caminho pode estar nas finalizações de média distância. Zion Suzuki é um goleiro de bons reflexos, mas nem sempre consegue dar direção aos rebotes. Se o Brasil aproveitar essas sobras na entrada da área, poderá criar boas oportunidades para abrir o placar.
Se conseguir explorar esses pontos e repetir o nível de atuação apresentado contra a Escócia, a Seleção reúne argumentos para confirmar o favoritismo. Ainda assim, a campanha japonesa deixou claro que qualquer descuido pode ser suficiente para transformar um confronto teoricamente acessível em uma partida extremamente complicada.
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